17.1.26

Françoise Hardy não chegou aos 81

 


O que aconteceria faz hoje um ano, mas morreu em 11 de Junho de 2024. Confessou que mais de um cancro transformaram a sua vida num pesadelo. Custou ler isto.

Seja como for, nós, «les garçons et les filles de son âge», ficaremos para sempre a dever-lhe memórias de ternura e de inocência. Voltar a ouvi-la, nos seus primeiros tempos, devolve-nos uma ingenuidade que parece hoje irreal.

Do seu álbum «Personne d’autre» de 2018:



Do álbum de 2012:



E, inevitavelmente, o início de tudo (1962), a canção ícone que ficou para sempre, com letra e música de sua autoria:


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16.1.26

Quem for com Ventura à segunda volta será Presidente

 




Inês Bichão

 


Lá terá de ser Seguro

 


«A utilidade do voto mede-se pelo seu objetivo. E a mesma pessoa pode ter objetivos diferentes em diferentes eleições. Quer pelas circunstâncias, quer pela sua natureza — em legislativas é possível formar maiorias sem ficar em primeiro, em autárquicas tem mesmo de se vencer, nas europeias isso é irrelevante e em presidenciais não sobra nada de uma derrota, porque “the winner takes it all”. Nas segundas presidenciais de meio século de democracia em que haverá segunda volta a dinâmica do voto útil é imparável. Porque só dois dos três grandes blocos políticos lá chegarão. E a extrema-direita é que tem os eleitores mais fiéis. Normalmente, a dinâmica da campanha levaria à concentração de votos nos candidatos de cada campo político. Mas são tão fracos que o processo foi retardado até ao fim. O voto já nem é pelo mal menor. Demasiados portugueses votarão em candidatos que não respeitam. Em candidatos que sempre disseram que nunca teriam o seu voto. Mas estamos a fazer uma espécie de segunda volta na primeira. Saber quem vai a votos com Ventura, por assumirmos o risco de ele lá estar. E estamos a fazer isto às escuras, com base em tracking polls e barómetros que valem pouco e uma única sondagem.

A direita parecia ter um candidato. Um facto consumado por uma década de presença na televisão. Talvez pelo excesso de confiança de tantos anos sem debater, Marques Mendes julgou que caminharia até Belém sem ter de explicar qual foi a sua profissão na última década. Obviamente não aconteceu, e a rea¬ção ao cerco mostrou que a pouca substância política (apesar da muita experiência nos corredores do poder e dos negócios) corresponde a pouca resistência. Foi-se abaixo. E o que era uma estratégia correta — apostar no eleitorado da AD, que o pode levar à segunda volta — passou a dependência desesperada, ao ponto de defender a ministra da Saúde. Nem os eleitores da AD apreciarão um Presidente adjunto num momento de enorme concentração de poder. Foi assim que Cotrim, uma espécie de suplente mais livre e fresco, foi trepando. Só que a bebedeira da glória súbita exibiu o que qualquer pessoa atenta sabe: a IL tem pouco a ver com os seus congéneres europeus. Entre um candidato do extremo-centro que vem do “socialismo” e um candidato de extrema-direita não escolhe. Como sabe quem os acompanha nas redes ou está atento a como votam no Parlamento, os nossos “liberais” vêm, como Ventura e companheiros, da nossa direita profunda. Entre um “socialista” e um inimigo da democracia, recusam o que põe em causa o que realmente valorizam. E foi com estes tropeções que a direita dispersou o voto, permitindo ao centro-esquerda sonhar com a segunda volta.

Ainda assim, permanece o risco de uma segunda volta entre a extrema-direita e o candidato do Governo ou o candidato dos liberais radicais. O primeiro caso daria a Montenegro o poder absoluto. O segundo seria um estouro nos nossos valores constitucionais, que incluem democracia política (que o Chega põe em perigo) e democracia social (que a IL ataca). Qualquer dos cenários reforçaria uma guinada radical à direita que não deixaria de ter impacto na natureza do mandato do novo Presidente e no rumo da governação. De tal forma perigoso que é impensável a esquerda não reagir. Os candidatos mais à esquerda fizeram boas campanhas e podemos instituir que as circunstâncias tornam os seus resultados irrelevantes para qualquer análise. Valores mais altos se levantam e isto não são legislativas.

A esquerda vive o dilema da direita: um voto útil às cegas entre duas escolhas pobres. De um lado, um militar inexperiente, que aprenderá no cargo e está a ganhar convicções na campanha, mas dá maiores garantias de controlo do Governo, criando o atrito de que a democracia precisa. Do outro, um político tépido, que criará um quase vazio em Belém, sendo improvável que alguma vez trave Montenegro, mas que representa valores decentes, sem estar dependente do primeiro-ministro. Se votasse por convicção, votaria em Catarina Martins, que fez uma excelente campanha. Se votasse para Presidente, votaria em Gouveia e Melo, que dá mais garantias de controlo da arrogância deste Governo. Mas voto para impedir uma segunda volta apenas entre a direita, seja extrema, radical ou do Governo, que criaria um desequilíbrio perigoso para o sistema. Segundo a única sondagem digna desse nome, Seguro é, por mérito próprio ou inércia tática, o único que o pode conseguir. E, se vencer, manterá mínimos de normalidade em Belém. Por isso, apenas por isso, terá o meu voto. Porque sei que o sacrifício que não fizesse agora teria de fazer, em dobrado, em fevereiro.»


Cotrim e as mulheres

 


15.1.26

Manuel João Vieira. Merecia mais atenção nestas Presidenciais tão cinzentas

 


«Dedicou o mais intenso dia de campanha a Campo Ourique. Por amor ao bairro lisboeta onde vive há 60 anos, deixou por vezes o ‘nonsense’ e a ironia que tem pautado a sua intervenção artística e esta peculiar campanha presidencial: lamentou a gentrificação, insurgiu-se contra a construção de uma estação de Metro e o abate de árvores centenárias. A BLITZ acompanhou Vieira no (meio) dia em que o candidato-músico ‘jogou’ em casa.»


Martin Luther King Jr


 

Chegaria hoje aos 97.

Ditadura

 


“Tracking polls”: toda a campanha num gráfico

 


«”Em queda sucessiva, Marques Mendes apela aos indecisos”, “a lenta (re)conversão socialista a Seguro”, “o que Cotrim de Figueiredo está a fazer de diferente”. São apenas três artigos, mas servem para ilustrar o tom dominante da cobertura jornalística desta campanha. Tanto o acompanhamento noticioso como grande parte da opinião publicada (também a minha terá sido afetada por isso) e da que circula nas redes sociais se baseiam num único instrumento de auscultação dos eleitores até estes últimos dias de campanha: a tracking poll da Pitagórica para a TVI.

Durante grande parte da campanha, tudo aconteceu em torno destas supostas sondagens diárias. Desde o início do ano, só nos últimos dias tivemos uma sondagem propriamente dita – a da Universidade Católica. A Intercampus tem um barómetro, que também é outra coisa.

Quando, a poucos dias do apuramento dos votos, um em cada seis eleitores reconhece não saber em quem votar e metade ainda admite mudar o sentido de voto, percebe-se a importância redobrada que o voto tático terá nestas presidenciais. O problema é que a escassez de sondagens abriu espaço a uma leitura abusiva do que é, afinal, uma tracking poll. A cada dia, com base num instrumento enganador, foram-se forjando humores, reações, táticas, estratégias. E o voto dos eleitores também terá sido influenciado, funcionando estas “sondagens” como profecias autorrealizadas.

Uma tracking poll não é uma sondagem. Ao contrário do que tem sido repetido por grande parte da comunicação social, é um instrumento diferente, com objetivos distintos. As tracking polls servem para medir a evolução de tendências ao longo da campanha e são usadas há vários anos pelas direções partidárias para afinar o discurso, testar mensagens e tentar alcançar novos segmentos eleitorais. Não servem para dar um retrato do eleitorado num determinado dia.

Curiosamente, a distinção foi feita pela própria TVI quando lançou, pela primeira vez, esta forma de análise do comportamento do eleitorado em tempo real, nas legislativas de 2022. “A Tracking Poll permite monitorizar o comportamento contínuo do eleitor, cruzando informações para observar as tendências seguidas, a rejeição e a intenção de voto”, afirmava então Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica. A prudência metodológica foi rapidamente abandonada em nome do imediatismo noticioso.

A comunicação social vive da novidade e, nesse aspeto, as tracking polls são tentadoras. Garantem números todos os dias, títulos todas as manhãs, dramatização em prime time. A questão, como mostra um estudo recente de Paulo Alexandre Pereira, da Universidade do Minho, é que estamos a ler um instrumento científico com as lentes erradas. Uma tracking poll não é uma sondagem nova a cada noite, mas uma “janela móvel” em que, a cada dia, muda uma parte da amostra. Neste caso específico, a cada dia há 150 novas respostas, gerando uma nova amostra a cada quatro dias.

Quando o espaço público se entusiasma com variações de um ou dois pontos percentuais, está a tratar ruído estatístico como se fosse uma viragem decisiva, efeito de um debate ou de uma mudança estrutural do eleitorado. Como diz o mesmo professor do Departamento de Matemática da Universidade do Minho, “uma diferença pequena num dia isolado não autoriza conclusões fortes; o que importa é saber se o movimento se repete e persiste”.

Estas leituras geram expectativas artificiais, dinâmicas de campanha induzidas, mobilizações e desmobilizações fabricadas. Esgotados que estão os comícios e as grandes mobilizações de rua, ainda para mais numa campanha no pico do inverno, a ideia de que temos uma sondagem todos os dias mobiliza e desmobiliza campanhas e eleitores. É mais um passo na desmaterialização das campanhas, que dependem cada vez menos da rua e do empenho militante.

Como já é a terceira vez que a TVI recorre a este método, sempre com a mesma empresa, podemos aferir melhor as suas potencialidades e limites.

Em 2022, quando António Costa alcançou uma maioria absoluta, o último resultado da tracking poll da Pitagórica indicava que “PS e PSD estão separados por 3,7 pontos, em empate técnico”. A aproximação do PSD ao PS, chegando mesmo a ultrapassá-lo a meio da campanha, foi a tónica deste estudo ao longo de duas semanas.

Nas legislativas do ano passado, o último resultado da Pitagórica dava 33% à AD, 25% ao PS e 19% ao Chega. Se acertou na vitória confortável da AD, a diferença de seis pontos entre o PS e o partido de André Ventura esteve a léguas do que aconteceu — com o Chega a tornar-se a segunda força mais votada, como sabemos.

Mas se olharmos para a evolução dos resultados da tracking poll ao longo da campanha das últimas legislativas, a tendência estava certa: PS sempre a descer e Chega sempre a subir. É aqui que reside a sua utilidade e é assim que deve ser analisada, não como um oráculo capaz de antecipar com precisão o resultado do próximo domingo. Ou seja: sabemos que Mendes caiu e Seguro e Cotrim subiram. Só isso.

Não serei o único a notar, à sua volta, uma dificuldade quase inédita na decisão do sentido de voto. Reflete, por um lado, o friso de candidatos mais fraco de que há memória e, por outro, a crescente desafetação entre o eleitorado e os partidos centrais do sistema. Mesmo com o apoio quase unânime das principais figuras do PS, a sondagem da Universidade Católica indica que Seguro parece garantir apenas metade do eleitorado socialista. Marques Mendes, ainda pior, vê João Cotrim de Figueiredo assegurar quase tanto a intenção de voto entre eleitores do PSD.

Num cenário de grande indecisão e voto tático, seriam desejáveis mais estudos e menos extrapolações abusivas a partir de um único instrumento. Como sempre, no fim serão os eleitores a decidir. A diferença é que decidem condicionados por uma campanha mediada por gráficos diários que dizem menos do que parece e mais do que deviam.»


14.1.26

Cotrim: mais um tiro no pé

 


«João Cotrim de Figueiredo pede a Luís Montenegro o apoio do PSD na corrida presidencial, o que significaria que o partido retirava o apoio a Marques Mendes. A iniciativa surge no dia seguinte à divulgação da sondagem da Universidade Católica para o Público e a RTP, em que André Ventura e António José Seguro aparecem na frente, com Cotrim a cinco pontos do líder do Chega e a quatro do ex-secretário-geral do PS.

“Sem querer menorizar a candidatura apoiada pelo partido liderado por V. Exa., assim como pelo CDS-PP, venho hoje apelar ao voto do PSD na minha candidatura”. (…)

Cotrim vê a sua candidatura com a "única capaz de impedir" um cenário com os candidatos apoiados por PS e do Chega a discutir a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa.»


Mal-entendidos

 


José Régio